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Olhar e ver

(A partir do capitulo "Olhar e visão" de José Gil, A Imagem-Nua e as Pequenas percepções -  Estética e Metafenomenologia, Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1996)

 

 

 "A arte não reproduz o visível; ela torna visível" (Paul Klee)

Ver, olhar

O que faremos é esclarecer duas atitudes diferentes: 

uma chamaremos "ver" 

outra  "olhar". 

No dia a dia utilizamos essas duas palavras como sendo sinônimas. Mas aqui não se trata de uma definição nominal (dizer que olhar e o ver significam), mas de 

uma definição real: ao definirmos o olhar  e o ver, mostramos como eles se constituem, e ao fazer isso perceberemos que o que denominamos olhar é construído de maneira diversa daquilo que denominamos ver.

Ver e olhar diferem, assim como diferem o visível e o invisível.

O visível só é visível porque é presença. Geralmente é a partir desse referencial que penso o invisível: como sendo aquilo que não é presença. Mas, e isso é importante, o invisível não é ausência. Um exemplo: este computador que esta diante de mim está visível; se o retiro da sala você diz: "agora não vejo mais o computador, ele esta invisível pois foi retirado do lugar". Ora, desse modo estou falando do invisível como se ele fosse um visível ausente. 

Para mostrar que o invisível não é pura e simplesmente um visível ausente vejamos duas determinações do olhar, e no que ele difere do ver:

1- Olhar como reflexão:

Agora olhem para uma mesa e depois olhem para um alguém. Qual a diferença? A diferença é que quando olho outrem olho um olhar que me olha, é por isso que quando somos - ou nos julgamos  -  olhados, levantamos os olhos para ver quem nos olha, isto é levanto os olhos para ver um olhar que me olha.

Tenho aqui uma reflexibilidade. Quando meu olhar se reflete no olhar do outro, eu me vejo neste olhar, porque me sinto olhado, isto é, vejo um olhar que me olha.

 Definamos: olhar  é olhar um outro olhar, enquanto que ver é receber estímulos pela percepção e decodificá-los.Portanto olhar é ver o olhar de outrem,  quando olho o outro ao mesmo tempo vejo o outro me olhando. Olho o olhar que me olha. Isto é reflexão. E esta reflexão é transmitida as coisas: porque olhar é ser olhado, que ver é ser visto. percebam a diferença: vejo a cadeira, a cadeira é vista por mim,  é  muito diferente de quando olho um olhar, este olhar me olha, o que não ocorre com a cadeira.

2- Olhar como inserção do corpo na paisagem:

Mesmo quando olhamos as coisas, existe uma diferença entre ver e olhar. Olhar e ver implicam em duas atitudes diferentes:Olhar é fazer inserir o meu corpo na paisagem, isto é  existe uma sutil diferença entre "ver passar os barcos" e  "olhar os barcos que passam" 

O primeiro caso ("ver passar os barcos") implica primeiro em uma distância entre o sujeito que vê e os barcos, e depois uma aproximação: alguma coisa que vem dos barcos (formas cores etc) determina minha atitude: vejo. 

Ao "olhar os barcos que passam"  as coisas mudam, não é mais a coisa que determina minha atitude, mas o próprio olhar já é uma atitude: ao olhar os barcos que passam eu me insiro na paisagem, os barcos passam por mim que estou olhando, portanto eu faço parte da paisagem, eu entro na paisagem.

Ver, olhar e linguagem

Distingamos dois níveis de visão:

num primeiro, onde o olhar tal como foi caracterizado, não aparece, e vamos supor neste nível que não temos a linguagem. É um ver sem linguagem: recebemos estímulos das coisas, situando-as por referencia umas às outras e todas por referência ao meu corpo. As coisas que vejo, aquilo que a minha percepção fornece é mudo (não tenho linguagem). Todas essas coisas que vejo, que são dadas em minha percepção, estão referenciadas a meu corpo, vejo formas, cores, distâncias que se remetem a meu corpo. 

Quando intervém a linguagem a situação muda. Agora as coisas podem se desligar de meu corpo: os objetos percebidos, agora são pensados. A linguagem desliga as coisas da visão.

É entre a visão muda e a linguagem que vem se inserir o olhar.

O olhar é uma espécie de linguagem não verbal, que surge no interior da visão, é uma atmosfera, pequenas percepções que procuram um caminho para se expressar, mas que são barradas pela inexistência da linguagem verbal. Olhar é uma atmosfera que pré-anuncia, faz pré-sentir a forma por vir. Quando a atmosfera muda, se precipita, define-se, forma-se um clima: ela assume determinações e formas visíveis.Agora podemos falar do invisível de outra maneira: o invisível não é o que não estou vendo, que esta ausente, mas esse lugar em que fica o olhar: nem a visão muda das coisas, nem o falar das coisas pela linguagem, mas essa atmosfera de pequenas sensações, uma linguagem não verbal que surge no interior da própria percepção, um campo de forças que busca uma expressão.

Vejam a frase de Klee que coloquei em epigrafe:

"A arte não reproduz o visível; ela torna visível" 

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Klee: "Novamente criança" (1939)

(Passe o mouse sobre a imagem: sua composição cria um movimento, onde passamos do rosto adulto para o corpo infantil. Esse movimento cria aquilo que chamamos olhar: uma atmosfera de pequenas sensações que nos fazem adultos e novamente criança.)

 

 

 

 

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